quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Maçã Agreste - Raimundo Carrero (trechos)


A comédia inútil, o riso martirizado

Naquela semana - nos dias que antecederam a conversa -, toda a carga de risos e gargalhadas tinha se apossado dele. Não lhe faltavam angústia e ansiedade, assim como não estavam ausentes alegria e prazer. A isto chamava: sentir a vida.

Quando voltou para casa, não podia estar mais inquieto, e, no entanto, mais satisfeito. 15

Não é pelos olhos que elas começam a morrer? Desse tipo de morte que é estar, irremediavelmente, morto, e não poder ganhar uma sepultura porque ainda vive? 18

Saí de casa, outro dia, ao anoitecer. Sem dizer nada a ninguém lamentava-me por não ter permanecido no ventre da minha mãe para não ser obrigada a assistir ao desespero do mundo, para não me ser imposta a visão de homens e mulheres que vivem os grandes tormentos, que formam a contorção da existência e que são incapazes de construir a estrada que nos leva à casa do sacrifício. 29-30

- Sua mãe parece uma velha gata grávida.
Jeremias insistiu:
- Ou uma vaca inquieta no curral. 36

Ela tinha certeza: na primeira vez em que a chamaram de Sofia estava quase sem dentes. Era apenas uma menina, no tempo em que, inexplicavelmente, os dentes começavam a amolecer, ficavam presos por uma leve película na gengiva, moviam0se ao toque dos dedos e ela passava, tempos inteiros, no fundo do quintal, entretida. Tinha medo, é capaz de morrer engasgada no sono, diziam,mas recusava-se chorando, a permitir que os arracassem, sofria com a possível dor. Não vai doer nada, repetiam. Pedia tempo e corria para o quintal onde, fatalmente ficava mexendo no dente. Achava mesmo que ele devia cair. Um frio no estômago. Por que o dente não ficava na gengiva? Permanecia sem comer, com receio. Às vezes, sem esforço, tinha-o na mão. Zangava-se com os próprios temores. 41

Nunca pensava antes, com tanta insistência, no próprio nome. Sentia-se apenas uma mulher, um ser humano, que ocupava um pequeno espaço no mundo, e caminhando, inexoravelmente, para o futuro, sempre para o futuro, ou para a velhice, e não tinha outra preocupação que não fosse viver. E viver, para ela, significava trabalhar, estudar e divertir-se, conhecer pessoas, passear, sem o mínimo desejo de construir um patrimônio. Agora, no entanto, inquietava-se. Procurava desvendar o mistério do seu nome, um título que ela mesmo não escolhera, e que cada vez que o pronunciava era como se outra pessoa estivesse no seu lugar. Estava para sempre condenada a viver assim, desencontrada, confundindo o que carregava no íntimo com o que se desenvolvia por fora, incapaz de compreender a existência, já que existir, para ela, era passar os dias, feito alguém que atravessa uma ponte. 42

...começou a refletir que a questão não era mesmo possuir um nome. O problema estava, talvez, na existência. 43

...as pessoas que passavem não riam apenas as suas vestes e o seu corpo, mas sobretudo o seu dilaceramento. 52

...nada era impossível para quem tinha desejos e determinações. 60

Embora narrase com convicção, Alvarenga não deixava de comer e de beber, às vezes limpando os dentes com as unhas, em algumas ocasiões parando para respirar e tossir. 61

Pobreza não me entristece,
riqueza não me assusta.
Só gosto do que é bom,
não quero saber quanto custa.
96

As pernas vacilavam mas a decisão era firme (ainda que o coração se rebelasse). 119

...não era qualquer homem que dava costas ao sol e ainda assim permanecia iluminado, os olhos cheios de ternura e valentia. Importava-lhe não desmerecer o caminho, sem cansar, sem permitir que as traças e as baratas lhe roessem as vestes, sem dividir o corpo e a alma, que agora eram só, inseparáveis, fogo cravado no coração. Abrasada e resplandecente. 204

Antes de fumar devo esquentar o café, que ela deixava pronto para não ser acordada cedo. Aproveitou a chama quase extinta, acendeu o fogo e, de costas para a cama, prefiro não vê-la, fere meus olhos e incomoda-me, esperou que a chaleira fervesse, e não posso repassar sempre essas coisas, cruzou os braços, sob pena de ficar preso num redemoinho eterno, atingido pelo frio, o cão grunhiu e latiu, despertando, saindo também da noite para o dia. 213

Está no maior michê chapinha faça força faça frequente seu medo homem. 219

Dizia que a vítima é que é o monstro, não se conformando com a dor e com a morte, expelindo ódio ao invés de sangue, insultando o homicida, escarrando os próprios dentes, gritando, prendendo nos pulmões a última respiração e nela guardando paixão, raiva, horror. Toda destruição é bendita, todo ódio sagrado e todo tormento divino. Não aceitaria mais ser empurrado para as margens, ser espremido nas paredes, ser atirado ao caos. Se alguma coisa ainda lhe restava e se não podia mais suportar o peso do próprio corpo, devia passar de vítima a homicida, transgredindo.

Terão toda a noite para roubar e matar, durante o dia rezaremos e louvaremos a Deus e a pátria. Sou o que sou e sendo o que sou não retornarei mais à poeira antiga. 222

Havia, inclusive, a palavra feliz inteiramente abominável naquelas circunstâncias. Os fiéis deviam sentir-se felizes, mas felizes com desespero. 230

Não estou preocupado em ser santo, não estou preocupado em ser demônio, não estou preocupado em ser profeta. Quero ser sincero. Sincero mesmo quando minto, porque a mentira exige uma grande dose de sinceridade. Não se é mentiroso a si mesmo. Quem primeiro deve ser convencido da mentira é o mentiroso. E isso não acontece comigo. É impiedoso não ter sinceridade. É grotesco. 233

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Trilha sonora do livro Medo e Delírio em LA, de Hunter S. Thompson

Mistura de ficção e realidade, não importa muito se essas músicas fizeram parte ou não da jornada maluca de Hunter S. Thompson, o que importa é que vale a pena conhecer essas 17 músicas:

Love in Vain - Robert Johnson


White Rabbit - Jefferson Airplane


Trechos do livro Medo e Delírio em Las Vegas

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Trechos de Medo e Delírio em LA - Hunter S. Thompson

ilustração de Ralph Steadman

“MATE O CORPO E A CABEÇA MORRERÁ”
p30

Senti que havia chegado o momento de fazer uma Reavaliação Dolorosa de toda aquela situação. Sem dúvida a corrida estava acontecendo. Eu havia testemunhado a largada; disso tinha certeza. Mas e agora, o que eu podia fazer? Alugar um helicóptero? Entrar de novo naquela caminhonete? Zanzar pelo maldito deserto assistindo àqueles idiotas passando a mil pelos pontos de controle, um a cada treze minutos...?
p46

Mas com essa outra viagem ninguém consegue lidar - um maluco pode entrar no Circus-Circus a qualquer hora, pagar 1 dólar e 98 e surgir de repente nos céus do centro de Las Vegas, doze vezes maior que Deus, urrando qualquer coisa que lhe vier à cabeça. Não, esta não é uma boa cidade para usar drogas psicodélicas. A própria realidade já é distorcida demais.
p57

Mandaram o infeliz para cá com uma tarefa perfeitamente normal - tirar algumas fotos de motocicletas e buggies correndo pelo deserto - e agora, sem saber, ele estava metido até o pescoço num mundo muito além de sua imaginação.
p65

Jesus do céu! Será que tem algum padre nesta taberna? Quero me confessar! Sou um pecador, caralho! Pecados venais, mortais, carnais, maiores e menores - você decide, Senhor... sou culpado. p.98

Se você não sabe, venha aprender...
Se você sabe, venha ensinar
p158 [título do capítulo]

Para uma cabeça cheia de ácido, a visão daqueles dois seres humanos fantasticamente obesos mandando ver em público, cercados por mil policiais atentos a um filme sobre os “perigos da maconha”, não seria emocionalmente aceitável. O cérebro rejeitaria aquilo: a medula tentaria se isolar dos sinais que receberia dos lobos frontais... e enquanto isso o cerebelo estaria desesperado, tentando interpretar aquela cena de outro modo antes de desistir e passar a tarefa para a medula - o que implicaria o risco de tomar providências físicas para acabar com aquilo.
p158-9

...Por que se dar o trabalho de ler jornais, se isso é tudo que têm a oferecer? Agnew tinha razão. A imprensa é uma gangue de covardes impiedosos. Jornalismo não é uma profissão, não é nem mesmo um ofício. É uma saída barata para vagabundos e desajustados - uma porta falsa que leva à parte dos fundos da vida, um buraquinho imundo e cheio de mijo, fechado com tábuas pelo inspetor de segurança, mas fundo o bastante para comportar um bêbado deitado que fica olhando para a calçada se masturbando como um chimpanzé numa jaula de zoológico.
p216

trilha sonora deste livro
consegui esse livro em um projeto de troca

domingo, 22 de outubro de 2017

O que achei da #bienalpe?



Não tenho o costume de ir a bienais, mas eu acho que, por ser uma bienal internacional, é preciso fazer alguns apontamentos sobre o que foi a bienal este ano.

Para começar, algumas ações que estavam acontecendo dentro da bienal eram sim politizados. A bienal em si não é. Mas esse fato de ter algumas ações politizadas acontecendo lá dentro, é um fato negativo. Não é que alguém vá mudar de posição política ou coisa do tipo, e não que eu esteja falando aqui que não se deve discutir política, mas não nesse sentido. Se fosse em forma de debate, faria sentido e seria muito bem-vindo. Não sendo assim, talvez algumas pessoas se incomodem e evitem ir ao evento.

O público que é pedestre e utiliza transporte público sofreu para chegar ao local. Uma pessoa que estava na produção foi assaltada na frente do Centro de Convenções. À noite, não tem iluminação, a parada de ônibus não tem nenhuma iluminação. Na parte de fora não tem nenhuma segurança, não tinha presença de policial ou segurança. No geral, os eventos que acontecem lá, são sempre assim. E para quem não conhece o Centro de Convenções, ficava completamente perdido e com o grande risco de ser assaltado.

A entrada da Bienal estava custando 10 inteira. Eu sou contra a meia entrada, mas isso é uma outra discussão. Pelo tamanho do evento, a entrada não estava justa, na minha opinião. Isso acaba afastando o público do evento, como eu já sei que teve gente que não foi por conta disso. Se a entrada estivesse pela metade do preço, mais gente estaria presente no evento, isso é melhor para as pessoas que estavam vendendo e para o evento em si. Gostei da opção da entrada social e de saber para onde iria se destinar essa entrada social que estava por 7 reais e 1kg de alimento. Vídeo aqui sobre isso.

Um ponto muito positivo é em relação à climatização. Em alguns pontos estava até frio.

Ponto negativo: banheiro. Eu sei que tinha sempre uma pessoa limpando o banheiro, mas o papel higiênico ficava caindo porque estava sem aquela proteção. Também não tinha aquela proteção para dar descarga. Minha mão ficou com a marca quando usei. Não tem gancho para pendurar a bolsa. Espero que a Empetur melhore isso aí.

Evento reduzido, praça de alimentação reduzida. Poucas opções para comer e as opções disponíveis estavam com o preço acima da média. Um dia lanchei lá, outro levei meu lanche de casa, e outro passei fome (esperei chegar em casa). E obviamente levei garrafa de água de casa mesmo.

O evento estava muito reduzido. Tinha poucas estandes. O evento foi mais para os nerds, tinha bastante estande desse universo. Tinha estandes de artesanato, mas deveria ter dado mais espaço para os livros. Eu particularmente gostei porque eu sou artesã e pude conhecer as pessoas desse universo, mas para um evento sobre livros, fiquei surpresa em ver artesanato lá. Digo isso apenas porque os livros não estavam lá essas coisas. Os livros que eu me interessei (das estandes das editoras) estavam a preço de livrarias e as demais estandes que estavam vendendo livros mais baratos, os livros não estavam bons (não no sentido físico) - com exceção do Diário de Anne Frank. Apenas uma estande eu pude perceber a boa qualidade do livro mais o preço baixo.

Tinha autores de todos os cantos do Brasil, mas acho que não teve nenhuma internacional não. Tinha mais editoras pequenas que editoras grandes (para mim, é um ponto positivo), mas de novo, o preço da maioria dos livros das editoras estavam a partir de 30 reais. [Sinceramente, não é caro, eu que sou pobre. A realidade é que o mercado editorial no Brasil é muito caro mesmo por causa dos impostos e do excesso de regulamentação do governo].

Acredito que a equipe de imprensa deveria ter divulgado melhor sobre tudo o que aconteceu durante todo o evento. Talvez eles tenham uma equipe reduzida e não conseguiram dar conta. Mas, apesar das chamadas em TV e rádio, a divulgação interna parece que não decolou muito bem. Além disso, precisam melhorar o site e precisam atualizar o site a todo instante durante o evento. Deixou muito a desejar essa divulgação nas redes sociais.

- - - - - -

Aparentemente, a Fenelivro estava melhor que a Bienal.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Por que homens deveriam manter um diário? - por Ollie Aplin no The Guardian

A história está cheia de homens que mantiveram diários, de Ernest Hemingway e Bruce Lee para Winston Churchill e Thomas Jefferson. Eles são diferentes entre si, mas esses homens tinham uma coisa em comum: encontraram força e conforto ao escrever seus pensamentos.

Bruce Lee escrevendo em seu caderno / Google

O professor James Pennebaker, especialista em psicologia social da Universidade do Texas, passou muitos anos a observar como escrever nossos sentimentos pode aumentar o funcionamento imunológico. Em Opening Up byWriting It Down, que eu tenho co-autoria com Joshua Smyth, Pennebaker diz que a escrita expressiva melhora a saúde e alivia a dor emocional. Ele inclui descobertas de centenas de estudos que mostram os benefícios para a saúde de expressar emoções, particularmente após um trauma.

Pennebaker explica: "Ao escrever, você coloca alguma estrutura e organização para esses sentimentos ansiosos. Isso ajuda você a passar por eles". Pennebaker também descobriu que a supressão de pensamentos negativos, ao invés de falar sobre eles, pode comprometer o funcionamento imune.

É por isso que o efeito da escrita de diários pode ser tão poderoso para os homens. O maior assassino dos homens entre 20 e 49 é o suicídio. Parte do problema é que quando eles ficam deprimidos, escondem seus sentimentos e preferem não procurar ajuda. Enquanto 67% das mulheres dirão a alguém que se sentem deprimidas, apenas 55% dos homens confiarão em alguém. Isso está mudando lentamente e os homens estão falando - do Rio Ferdinand ao Professor Green e ao Príncipe Harry.
Anotação pessoal de Bruce Lee / Fonte

Escrever como você está se sentindo tem imensos benefícios para a saúde mental e física - e os homens precisam mais disso, diz Ollie Aplin

Parte do problema é que, quando os homens estão deprimidos, eles tendem a ocultar seus sentimentos.

Embora este trabalho seja extremamente importante, ainda existem muitas outras pessoas que podem não se sentir bem para conversar e preferem manter as coisas privadas. É aí que o poder de manter um diário pode ser tão útil. É o próximo passo, sem se sentir muito exposto, onde os homens podem comunicar em privado os altos, baixos e todas as suas emoções no meio. Os cadernos são seguros para desabafar, sem medo de serem julgados.

Fui criado para não compartilhar o que estava acontecendo em casa e, portanto, como eu sentia. Não consegui expressar as coisas que estava passando com amigos e familiares. Eu estava tão desconectado das minhas emoções que eu não sabia do que estava pensando ou sentindo. Ficando sem emoção e resistindo, sentiu-se acomodado.
Desenhos feitos por Bruce Lee

Tudo mudou quando minha mãe tirou sua própria vida e, dois anos depois, sofri um colapso. Eu tinha 19 anos e ainda não estava pronto para conversar, então meu conselheiro recomendou manter o diário. Nove anos depois, meu diário mudou minha vida. Foi o catalisador que eu precisava e agora sou capaz de compartilhar, quando quiser, qual é a minha mente e como estou me sentindo.
Os efeitos foram benéficos nos últimos dois anos. Tenho pesquisado e projetado um tipo único de revista. MindJournal é um projeto guiado; um caderno preenchido com perguntas e tarefas que incentivam os homens a registrar seus pensamentos mais íntimos. Cada cópia contém um "manual de instruções" para inspirar os possíveis escritores a se expressar livremente.

Quando se trata de minha própria escrita, não há um conjunto específico de regras ou expectativas. Eu vejo a medicação para minha mente. Quando tenho dor de cabeça, sinto-me ansioso ou estressado, anoto algumas frases. Não tenho horários fixos - pode ser à noite ou à primeira hora da manhã.


Eu nem sempre quero falar sobre meus sentimentos; eu ainda gosto de manter as coisas privadas. E está tudo bem, porque eu tenho meu diário.


*   *   *


Extraído do texto escrito por Ollie Aplin no The Guardian (texto original em inglês)

Observações: 

O texto foi traduzido pelo Google Tradutor, mas tive de alterar algumas partes para fazer mais sentido e dar mais fluidez à leitura.

Não sei se o livro foi traduzido e publicado para o português.

Em relação ao texto ser dirigido para os homens; na minha opinião, por mais que as mulheres tenham uma facilidade maior em falar sobre os seus sentimentos, acredito que elas também deveriam conhecer o benefício de se manter um diário. Não acredito que no Brasil as pessoas tenham esse costume de escrever, seja homens ou mulheres. Por isso que gostaria de compartilhar esse texto e dirigir para todas as pessoas, seja homem, mulher, jovens, idosos e etc.

Outra consideração que devo fazer é em relação ao idioma. No inglês, existem duas palavras que se distinguem, e que no português só temos uma (que eu saiba). A palavra diary significa escrever sobre o seu dia, o que você fez e etc, como em um relatório. Mas journal tem um sentido mais amplo, no sentido que é escrito neste texto. Ou seja, escrever sobre seus sentimentos, seja em forma de desenhos, pinturas, poemas ou mesmo na escrita. Pode ser também através de colagens de revistas e etc. Não interessa a forma, mas o que aquilo significa para a pessoa. Em nosso vocabulário, a palavra diário pode servir para ambas as coisas.

Todas as fotos estão relacionadas a Bruce Lee e foram encontradas numa pesquisa do Google e não estão no post original do The Guardian, mas o autor cita Bruce Lee como um dos homens que mantinham um diário.

Recomendo todos os links aqui neste post (estão em amarelo). É só clicar que vai abrir em outra página.

Uma das páginas do diário de Bruce Lee / Fonte

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Expositores recomendam livros na #bienalpe


[assista esse vídeo no youtube]

Já que estávamos num evento repleto de livros, decidi perguntar aos expositores que estavam participando da XI Bienal do Livro de Pernambuco, qual livro eles recomendam ou um livro marcante.

Esse foi o resultado:


  • Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
  • Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes
  • Direito Penal - Parte Geral - Cleber Masson
  • O Mestre da Sensibilidade - Augusto Cury
  • A Cabana - William P. Young
  • A Dança do Universo - Marcelo Gleiser



Novidades da Literatura Nacional
Entrevista Fernando Monteiro

Trechos do livro Quando Nietzsche Chorou de Irvin D. Yalom

Quando Nietzsche Chorou
Irvin D. Yalom



Achar tudo profundo, eis um traço inconveniente. Faz com que forcemos a vista o tempo todo e, no final, encontra-se mais do que se poderia desejar. P. 111

Não sei porque viver! Não sei como viver! P. 177

Houve um momento hoje em que experimentei uma estranha ausência. Senti-me quase como se tivesse em transe. Talvez eu seja, afinal, suscetível ao mesmerismo. P.226

Às vezes, é pior para um filósofo ser compreendido do que ser mal compreendido. Ele tenta me compreender bem demais; ele me adula na tentativa de obter orientações específicas. Quer descobrir meu rumo e usá-lo também como seu rumo. Ele não compreende que existe um rumo meu e um rumo dele, mas que não existe “o” rumo. Ele não pede orientações diretamente, mas me adula e finge que sua adulação é outra coisa: ele tenta me persuadir de que minha revelação é essencial ao processo de nosso trabalho, de que o ajudará a falar, nos tornará mais “humanos” juntos, como se chafurdar na lama juntos significasse ser humano! Tento ensinar-lhe que os amantes da verdade não temem águas tempestuosas ou turvas. O que tememos são águas rasas! P. 226

Chegar aos 40 abalou a ideia de que tudo me era possível. Subitamente, entendi o fato mais óbvio da vida: que o tempo é irreversível, que minha vida estava se consumindo. É claro que eu já sabia disso antes, mas sabe-lo aos 40 foi uma espécie diferente de saber. Agora, sei que o “rapaz infinitamente promissor” foi meramente uma ordem de marchar, que “promissor” é uma ilusão, que “infinitamente” não tem sentido e que estou em fileira cerrada com todos os outros homens marchando em direção à morte. P. 235

Viva enquanto viver! A morte perde seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida! Caso não se viva no tempo, certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo. P. 301

Primeiro desejar aquilo que é necessário e, depois, amar aquilo que é desejado. P. 343

Cada um de nós deve percorrer seu próprio caminho. P. 366

Amor fati: escolhe teu destino, ama teu destino. P. 366

Tive de procurar alguns livros para vender e assim ajudar uma senhora. Entre eles, estava este livro que li anos atrás. Encontrei duas folhas soltas com essas partes do livro e comecei a reencontrá-las no livro para colocar a página que tinha a frase/trecho. Os trechos e frases a seguir, não consegui encontrar no livro - mas provavelmente está lá (porque estava entre as minhas anotações nas duas folhas):

Isaac estava fazendo 60 anos e descreveu um sonho que tivera na noite anterior. Ele estava percorrendo uma longa e escura estrada e tinha sessenta moedas de ouro no bolso. Estava certo daquela cifra exata. Tentava segurar as moedas, mas elas caíam por um buraco no bolso e estava escuro demais para achá-las.

O sonho deve ser um desejo de perder anos e se tornar mais jovem.

Pode ser que o sonho tenha expressado um temor: o temor de que seus anos estejam acabando e de que logo não restará mais nenhum!

Ele estava em uma longa e escura estrada tentando recuperar algo que perdera.

Talvez os sonhos possam exprimir quer desejos, quer temores. Ou talvez ambos.

Acredito agora que os medos não brotam das trevas; pelo contrário, eles são como estrelas: estão sempre ali, mas obscurecidos pelo clarão da luz do dia.

Os pensamentos são sombras de nossos sentimentos: sempre mais escuros, vazios e simples.

Ninguém mais morre devido a verdades fatais hoje em dia; existem antídotos em demasia.

De que serve um livro que não nos transporte além de todos os livros.

Qual é o sinal da libertação? Não mais se envergonhar diante de si próprio!

Morrer é duro. Sempre senti que a recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais!


Para mim a palavra “dever” é pesada e opressiva. Reduzi mais deveres a apenas um: perpetuar minha liberdade. O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o espírito. Eles jamais me dominarão. Espero, que chegue o tempo em que nem o homem nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Novidades da Literatura Nacional #bienalpe


[assista ao vídeo no youtube]

Esses foram alguns autores que estavam lançando seus livros na Bienal de Pernambuco. Não consegui fazer com todos os escritores que tinham stands lá.

Mas já deu pra perceber que tem muita novidade na nossa literatura. Eu me interessei por praticamente todos os livros apresentados nesse vídeo.

Acho muito importante a gente dá voz a esses escritores, dá espaço para a literatura nacional e foi isso que eu tive a intenção de fazer.

Livros:


  • Nove Meses e Quarenta Minutos - João Borges
  • Destino Proibido - Junior Franco
  • A Chave dos Mundos - Zeca Machado
  • Lavínia e a Árvores dos Tempos / Lavínia e a Magia Proibida - Lucinei M. Campos
  • Princesas GPOWER - Janaina Rico
  • A Gente dá Certo - Leonardo Antan
  • Memórias de Julho - Jéssica Figueiredo
  • O Vestido de Trinta Rosas / O Jardineiro - Lívia Messias
  • Homem pra Casar - Janaína Melo
  • Scorpion - Agatha Félix
  • Boteco dos Deuses - Carlos Ruas


Queria muito ter comprado todos os livros, mas infelizmente a minha situação financeira está deplorável. E isso eu vou falar no vídeo sobre o balanço geral da bienal (acredito eu). Mas o fato é que eu estou desempregada.

Se você é um(a) dos(as) escritores(as) que aparece no vídeo, por favor, deixe seus contatos de redes sociais nos comentários que eu darei uma atualizada neste post e na descrição do vídeo no youtube.

Meu canal com mais vídeos da bienal

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Fernando Monteiro: poetas que admira e livros híbridos

“A escrita como resultado é uma consequência de ler. É quase inevitável.

Ler é aquilo que desencadeia o gatilho de escrever”.



[link para o vídeo no youtube]

Ainda com a minha inexperiência, queria muito entrevistar um dos homenageados da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. #bienalpe

Fui para a conversa de Fernando Monteiro e o poeta Sérgio de Castro Pinto em um momento da Bienal que se chama Palavração - O ano das lágrimas na chuva; para depois realizar a entrevista com o autor.

Fiz perguntas das quais eu estava interessada pela resposta, não quis me ater a algum livro do autor, mas consegui extrair dele algumas referências de poetas e livros - essa foi a minha maior intenção.

Mesmo errando uma das perguntas que fiz, acho que foi uma entrevista proveitosa.

Fernando transfere suas experiências e inspirações nos seus livros e cita autores e obras que admira também em suas obras.

Escreve quando tem algo para revelar ao leitor, e não como uma necessidade de ser publicado.

Fiz uma lista de poetas que Fernando Monteiro admira e cita na entrevista:

  • Jorge de Lima, 
  • Manuel Bandeira, 
  • Joaquim Cardoso, 
  • Emílio Moura, 
  • Drummond, 
  • Garcia Lorca, 
  • Wallace Stevens, 
  • William Carlos Williams, 
  • Pedro Salinas, 
  • Juan Gelman.

Os livros que mais marcaram o autor foram Moby Dick (Herman Melville) e Os Sete Pilares da Sabedoria (T. E. Lawrence). O escritor prefere esses livros híbridos, que não tem forma definida; como, por exemplo, Os Sertões de Euclides da Cunha.

Sobre o poema longo de Fernando Monteiro (minhas impressões de leitura do livro Vi uma foto de Anna Akhmátova)

Trechos do livro Vi uma foto de Anna Akhmátova (poema)

Trechos do livro O Livro de Corintha (romance)

Sobre o poema longo de Fernando Monteiro - Vi uma foto de Anna Akhmátova

Ao saber que Fernando Monteiro seria um dos homenageados da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, tratei de ir na biblioteca e ler pelo menos alguma obra. Eu nada conhecia do autor. E para mim, é importante conhecer autores e obras da nossa região.



A primeira obra que eu peguei foi Vi uma foto de Anna Akhmátova, um livro de poema. Um poema longo, quase um romance. Ele inicia o poema através de uma foto da poetisa em uma loja de antiguidades ou numa livraria de terceira” (não me recordo agora, já entreguei o livro).

Eu me senti um pouco perdida no começo, confesso. 
Quando comecei a ler livros em bibliotecas, eu escolhia os livros de poesias (pois eram mais curtos). A primeira biblioteca que eu frequentei foi a biblioteca do colégio Nóbrega, eu estava na terceira série (do ensino fundamental vigente na época).
Mas comecei a me acostumar com a leitura. O autor gosta muito de citar outros autores e outras obras em seus livros. Neste livro ele citou alguns autores, entre eles, a escritora Clarice Lispector.

Eu não tinha conhecimento sobre Anna Akhmátova e muito menos sobre as suas obras. Mas acredito que isto não seja necessário para apreciar esta leitura.

Gostei muito dessa estrutura de poema longo (até então eu tinha lido os clássicos de Tomás Antônio Gonzaga), e, por não entender de poesia, vou chamar aqui as “divisões” de capítulos, onde ele sempre inicia com a frase que dá título ao livro: “Vi uma foto de Anna Akhmátova,”, primeiro verso, iniciando a primeira estrofe de cada “capítulo”.

Eu já estava apreciando cada verso do poema, e a mágica começou quando eu decidi ler em voz alta. Tudo fez muito mais sentido para mim. O poema se tornou muito mais poema, erudito.

Ele dá voz a algumas personagens e nos deixa alguns flashbacks, alguns lapsos de momentos desses personagens, visualizo como memórias:

para que serviria uma construção tão monstruosa
(“está claro que nunca foi apenas uma tumba”),
alguma moça que me convidara para o chá,
uma música pedida por mim (“para quem?”).
Para você.
“Para mim?”
Pois eu não me lembro de gostar dessas harmonias de gosto vulgar”...


Para mim, o melhor trecho que extraí desse livro foi algo que me atrai muito visualmente, como uma pintura ou uma fotografia. Eu sempre faço isso quando leio livros, pois sou fotógrafa e também aprecio muito a pintura e o cinema. Este eu queria ter em um quadro:

Esta mulher está só
sumindo entre as samambaias
com o mesmo riso da juventude
a escrever poemas. 


Mesmo sem conseguir entender muito bem poemas, em geral, eu aprecei muito esta obra. Não conseguiria falar sobre ela para alguém, apenas que gostei da experiência.


*  *  *


Deixei disponível alguns dos que eu considerei os melhores trechos deste longo poema de Fernando Monteiro: Trechos de Vi uma foto de Anna Akhmátova.

We don’t know how to say goodbye - poema em inglês da poetisa Anna Akhmátova

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Trechos do livro O Livro de Corintha de Fernando Monteiro


“moça lendo numa sala”, poderia ser o título da gravura que é a janela – a única sem cortinas – na fachada cinzenta do prédio manchado de umidade em torno do retângulo onde a jovem se mantém absorta no livro.
16

Comida, estômago, frio, sexo – e a perda de cabelo da juventude. O aroma no nosso encalço: loção contra a queda de cabelo de quem cortou os pulsos, todos chegaram tarde, ninguém pôde salvar o antigo inquilino que não morreu porque perdia o cabelo, mas porque o dia e a noite haviam derrotado sua pasta de tentativas malogradas no voltar para casa, para a mulher, para os filhos e para longe do centro onde agora o apartamento que ele nunca pagava foi alugado à moça que lê, na falsa noite afastada pela lâmpada, a jovem de pijama com as pernas neste momento cruzadas (o vértice do V do ventre apertado na peça de baixo do pijama que se marca na pele macia da parte de dentro da coxa), não uma gravura, não um quadro cinza de Hopper, um interior velado de Veermer, um quarto torturado de Goya, porém uma pessoa real, uma mulher viva a respirar no ritmo do planeta em sua rota de mínimas alterações ao longo de séculos empoeirados. Corintha vê que também há poeira no tampo arranhado da mesa. 
17

Retomaram o trabalho, o homem que dita, metódico, monocórdio mesmo, e a moça que bate, com dedos com um pouco mais de convicção sobre as teclas com as letras gravadas, gafanhotos agora acordados pelo seu toque de unha e carne, toc, toc-toc-toc, toc-toc-toc – irregular e irritante para vizinhos e, talvez. Para algum mendigo que queira dormir na calçada, após pedir permissão para acatar as mangas caídas no quintal. 
33

Há tantos pequenos mistérios em torno de uma vida sem mistério algum, numa janela aberta para a curiosidade, quando ela se abre, é claro, sem cortinas para a visão de rotinas suaves ou agitadas, tensas ou calmas, das mulheres sozinhas e das casadas, que se tocam e não se toca, leem livros e leem revistas coloridas às vezes trazidas de consultórios, dobradas nas bolsas. 
40

“As cortinas que comprou para o apartamento da amiga, ela não trouxe porque achou que arrastá-las seria deselegante. E se não é mesquinha, ela é, sem dúvida, econômica – e nada paranoica com a intimidade desvelada. ‘Cortinas podem esperar’, talvez formule, para si, numa reflexão despojada e despreocupada com a ausência do pano que velaria a ocasional transparência dos pijamas curtos e dos decotes confortáveis (uma moça nunca se livra de olhares, certo? Ela é focada pelos olhares masculinos, e examinada, avaliada, analisada às vezes em segundos, quando é bonita e passa no meio de homens desocupados que fixam a atenção nas pernas, na bunda, nos seios adivinhados e no seu rosto que se mantém impassível ou que endurece um pouco, quem sabe, na falsa expressão ausente de quem espera não ser perceptível, num cerrar de maxilares ou num mais tenso “olhar para frente” o ponto para além dos pesados olhares “latinos” - conforme localizam as revistas para mulheres talvez feitas por homens que não se imaginam na condição de fêmeas estudadas, reavaliadas, eles, queiram ou não queiram, fazendo revistas para machos que olham moças de alto a baixo etc). 
46-47

“Você está obviamente mais cansada do que a borboleta humana que o louva-a Deus traz para dentro da teia de enganos de quem se perde pelos olhos.”

Ele disse isso mesmo – ou ela imaginou? Foi um pedaço do livro ditado que ficou errando na sua cabeça, ou foi, de fato, dirigido a Corintha, uma frase torneada como são as frases mais coloquiais de Methódio Guerreiro? 
48

...os cegos envelhecem mais lentamente, uma vez que, pelo menos, não estão cercados da própria imagem nos espelhos, não podem acompanhar o trabalho dos anos no rosto, no corpo que só tateiam e sentem por dentro. A velhice é, para ele, também uma dimensão obtida principalmente do “externo” que inclui os reflexos, as fotografias, as estranhezas de ver a si próprio como o outro nos vê (estava brincando? Não, não estava brincando; sua expressão era séria e melancólica, na face parada). 
65

...minha mãe dizia que eu era o único filho médium que ela tivera, numa família de católicos (ela morreu convertida à religião dos espíritos, com aquela cara de bebum de Allan Kardec olhando das capas de livros de distribuição gratuita nos Centros apolíticos, fios, juntando gente cada vez mais fraca pela crença da purgação de crimes através das vidas sucessivas que levavam um Lênin a reencarnar como Eva Perón, para de novo viver o destino de múmia insepulta). 
76

Ela gostava de escrever com a numeração romana das partes divididas. Dizia que havia lido livros assim, toda a vida, e que isso dava um agradável “ar seguro, de mostrador de relógio antigo” aos capítulos sucessivos, com começo, meio e fim, nessa ordem, faz favor. 
83

...um livro que é como todos os livros: uma ilha de solidão suspensa da armadilha de solidão da vida.
83

(...) Um livro é um objeto diferente dos demais: é só papel, porém só de plátanos muito mais tarde transformadas nas florestas nas florestas abstratas do livro de papel que ultrapassa os bosques da tarde, da noite mergulhada num livro pleno de sol, na biblioteca fechada de Corintha:
Preciso organizar anotações que estão metidas em todos os livros da minha pequena biblioteca particular, (...)
84

Esta noite, Corintha leu durante duas longas horas. Talvez seja daquelas que se sentem obrigadas a terminar um livro, a ir “até o fim”, simplesmente porque “começaram”. 
85

...e ele também comenta, agora, sobre coisas inesperadas, fala das rosas do jardim da frente e lhe presenteou com alguns frutos da estação, para que ela os levasse para casa (“são tantos que alguns irão apodrecer, ficarão passados, estragados”). 
96-97


...o apartamento está fechado, vazio de novo, “PARA ALUGAR” mais uma vez, nem bem acabara de chegar anova inquilina que partiu, como um fantasma, levando móveis, seus quadros, seus tapetes e seus livros esvaziados da mágica da ponte de palavras num vão de pombos pousados sobre a caixa de cimento do ar-condicionado, tampada com papelão (vi quando fazia esse improviso, com tesoura e fita adesiva nas mãos). Agora, o apartamento é uma janela fechada, um “não” de poeira e vidro corrido para baixo, uma leitura interrompida de atos, gestos, decisões mudas sobre pequenos assuntos que escapam do observador afastado e próximo, que conhece os ritmos, as rotinas desimportantes da casa de uma desconhecida que faz falta, ou que voou como os pássaros, sumiu do quadrado do prédio vizinho agora deserto do que me interessava nele, não a parede, nem uma janela iluminada, qualquer janela, mas aquela pela qual vai se formando a onda de ternura curiosa, (...). 
116


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

trechos do livro Vi uma foto de Anna Akhmátova de Fernando Monteiro



Vi uma foto de Anna Akhmátova,
numa oferta de segunda mão
em livraria de terceira
fechando as portas também baratas
em liquidação de quarta despedida
dos leitores de páginas impressas
à tinta das antigas tipografias
condenadas aos museus,
setor dos tipos móveis de Gutemberg
que não mais importa.




Isso faz muito tempo.
Isso faz algum tempo.
Isso faz pouco tempo.
Que tempo isso faz?

Sei que eu via a linha do mar de chumbo descansando do esforço da manhã.

Os guarda-sóis permaneciam na distância, a projeção de sombra redonda
dos panos mudando da aeria seca para a areia molhada onde restavam
pegadas de banhistas despreocupados, já retirados para seus bangalôs
no limite das árvores protegidas pela cerca branca das praias particulares.



Você pensa, então, que não está só - mas está.
Pode estender a mão e tocar naquele ombro da outra noite,
há muito tempo,
há tempo nenhum - há quanto tempo?



Esta mulher está só
sumindo entre as samambaias
com o mesmo riso da juventude
a escrever poemas.



A Natureza não sabe quando peca,
nem quando destrói.
Ela é nosso segredo,
e está do lado da cegueira,
da inocência das leoas sem passado
e sem futuro (uma intensidade branca
num eterno presente).
(...)
A Natureza é sem justiça e sem perdão,
acende-se nos vulcões e nos corações
dos cartões de Natal atravessados
de uma seta desenhada à caneta.
E ela está prenha dos próprios filhotes
de há três estações
brincando na relva (o teu temor).



Ela o desafiou antes de mim,
ela me condenou sem condenar
e me abençoou sem abençoar (...)



Estávamos tão loucos - em Paris,
novamente - que discutíamos por qualquer coisa
ao alcance (ou não) da discórdia:
a cor das paredes do hotel de Pera,
o lado de entrada na massa da Pirâmide,
para que serviria uma construção tão monstruosa
(“está claro que nunca foi apenas uma tumba”),
alguma moça que me convidara para o chá,
uma música pedida por mim (“para quem?”).
Para você.
“Para mim?”
Pois eu não me lembro de gostar dessas harmonias de gosto vulgar”...

Porque em Paris ela se fazia mais do que ciumenta.
E se tornava irascível, nervosa e com medo de ficar
muito velha, se repente.
Temia mudar como as flores, de um dia para o outro.




(...)
em data guardada entre as garras do tempo
abrindo frestas quando uma mulher
solitariamente se ressente
do próprio reflexo.



Trechos do livro O Livro de Corintha de Fernando Monteiro

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Gatos e cachorros de rua | Projeto Fotográfico



O projeto fotográfico sobre gatos e cachorros de rua ainda não terminou, e ainda falta muito para terminar. Mas eu fiz esse vídeo para atualizar e para ver se desperta o interesse das pessoas.

Acredito que eu farei um vídeo explicando melhor sobre o projeto, até porque, na minha última saída fiz uns takes para poder divulgar sobre esse projeto fotográfico.

Atualizo tudo na minha página do facebook.

O que eu quero é fazer todas as saídas esse ano, ter todas as fotos em mãos para poder começar a manipular as fotos e preparar para o projeto da exposição.

A maior dificuldade que eu estou tendo para continuar esse projeto, é a falta de segurança. Andar com uma câmera por aqui, chama muita atenção. Tem tido muitos assaltos ultimamente. Mas vamos seguir o projeto mesmo assim.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

videoclipes by David Dean Burkhart XVII

Este será o último post com os videoclipes do David Dean Burkhart.
Quem mais tiver interesse em suas "colagens", é só clicar aqui no canal do youtube.



Cenas do curta Os Pivetes / Les Mistons (1957), de François Truffaut.

 


Cenas de vários filmes de terror com monstros.

 


Cenas do filme The Haunting of Julia, de Richard Locraine e Mia Farrow no papel principal.
O filme é uma adaptação do livro Julia, escrito por Peter Straub, publicado em 1975.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Trechos do livro Aos Olhos da Multidão ou Fama e Anonimato, de Gay Talese

capa horrível da primeira edição que foi publicado no Brasil

- Na luta com Liston, os cronistas esportivos notaram e disseram que eu parecia estar com medo. Mas não era isso. Não posso olhar nenhum lutador de frente porque... bem, porque vamos lutar, o que não é uma coisa simpática, e porque... bem, uma vez olhei de frente para um lutador. Foi há muito tempo. Devia ser amador, naquele tempo. E quando o fitei, vi que tinha uma fisionomia tão simpática... e então ele olhou para mim e sorriu... e eu correspondi ao sorriso! Foi estranho, muito estranho. Quando um sujeitos olha para outro e sorri assim, acho que não devem lutar. Não me recordo do que aconteceu naquela luta e nem me lembro do nome do sujeito. Só que desde então nunca mais olhei de frente outro lutador. [sobre Patterson] p.59

"Escolho não ser um homem comum... é meu direito ser fora do comum, se puder... Espero a oportunidade, não a segurança... Quero assumir o risco calculado, sonhar e construir, falhar e vencer... recuso trocar incentivo por uma dádiva... prefiro os desafios da vida à existência, o êxtase da realização à calma viciada da utopia...". [sobre Peter O'Toole] p.121

- Em tempos de injustiça, o lugar do homem honesto é a prisão. - Harold Humes [sobre Paris Review] p.152

"O dia inteiro, enquanto seus colegas correm de um lado para outro, em busca do momento presente, Whitman fica tranquilamente sentado à sua mesa, tomando chá, mergulhado no seu estranho mundo de semimortos, semivivos, naquele recinto imenso chamado redação". [sobre Alden Whitman] p.199

Texto completo À Procura de Hemingway (sobre a Paris Review)

"Ernest Hemingway adorou ler as notícias dos jornais referentes a sua morte num desastre de avião na África. Mandou colar os recortes num álbum e alegava iniciar todos os dias com um "ritual matutino de champanha gelado e duas páginas de obituário". Elmer Davis foi duas vezes erroneamente apontado como vítima de catástrofes e embora confessasse que "sair vivo depois de ser dado como morto é um indizível imposição aos amigos", negou o boato e foi "em geral mais acreditado do que é o caso quando se têm que contradizer algo dito a seu respeito nos jornais".
Alguns jornalistas, não confiando talvez nos colegas, escreveram seus próprios obituários antecipados e discretamente os introduziram no necrotério, à espera do momento propício. [no texto sobre Alden Whitman] p.201

Quando Whitman foi levado para o Knickerbocker Hospital em Nova York, um repórter foi designado para "atualizar a sua biografia". Whitman, depois que se recuperou, nunca viu seu obituário antecipado, nem espera vê-lo, mas imagina que tenha uns sete ou oito parágrafos de extensão, devendo começar mais ou menos assim:

"Alden Whitman, membro da equipe do New York Times, que escreveu os obituários de várias personalidades mundiais, morreu subitamente ontem à noite em sua residência na Rua 116 Oeste, de ataque cardíaco. Estava co cinquenta e um anos de idade..."

Será muito concreto e fácil de verificar e registrará que nasceu a 27 de outubro de 1913 em Nova Scotia, sendo levado para Bridgeport pelos pais dois anos mais tarde; que se casou duas vezes, tendo dois filhos do primeiro casamento, foi membro ativo do Sindicato dos Jornalistas de Nova York. Em 1956, entre outros colegas, foi integado pelo Senador James O. Eastland sobre suas atividades esquerdistas. O necrológio terminará talvez com uma relação das escolas que frequentou, mas não mencionará que durante os anos elementares saltou dois anos (para alegria da mão, professora; o feliz acontecido colocou-a em ótima posição junto à diretora da escola); dará uma relação dos locais onde esteve empregado, mas não dirá que em 1935 quebraram-lhe todos os dentes, nem que em 1937 quase morreu afogado quando nadava (experiência que achou sumamente agradável), nem que em 1940 esteve a ponto de ser esmagado por um parapeito que ruiu; que em 1949 perdeu o controle do automóvel e derrapou até à beirada de um abismo, numa montanha do COlorado; nem que em 1965, após sobreviver a uma trombose das coronárias, repetiu o que vinha dizendo quase a vida inteira: Deus não existe, não temo a morte porque não há Deus, não haverá Dia do Juízo". [sobre Alden Whitman] p.203

... e permanecer por breve tempo...
depois partir para outra cidade, outra ponte...
ligando tudo, menos suas vidas. [parte 2, sobre a ponte] p.307

- Não lamento nada do que fiz, Jay. Só lamento o que não fiz. [parte 3, sobre Nova Iorque] p.391

sábado, 23 de setembro de 2017

ó céus, ó vida

essa vida de formiga tá mais interessante que a minha

Fiquei muito triste esses dias porque a minha gata Minnie ficou doente de novo esse ano e dessa vez ela precisou ficar internada tomando soro. Ela já voltou para casa e está melhor; está voltando a comer e beber água. Continuo triste porque tanto a mãe quando o irmão estão estranhando ela, por conta do cheiro. Eu quero ficar com ela o tempo todo, mas ela prefere ficar triste e sozinha.

Eu já desconfiava mas ficou muito mais evidente que eu sou uma pessoa muito sensível. Qualquer coisa eu perco o apetite, choro e penso nas piores coisas. Fiquei muito chateada esses dias porque "discuti" com os caras da biblioteca. Eu não queria discutir com ninguém, só levantei uma questão. Livros sobre ensaios e livros do Gay Talese (assim como Aos Olhos da Multidão / Fama e Anonimato) estavam na prateleira de ficção americana. Este livro do Gay Talese, por exemplo, é um punhado de textos que foram publicados em jornais e não são de ficção americana. Levantei a questão e me acusaram de contestar a ciência, alegando que eles são formados em Biblioteconomia e eu... quem és tu idiota? que fica contestando a ciência?

Daí em diante, um dos caras que se diz bibliotecário, fica me olhando feio, com cara de quem comeu e não gostou e está irritado por causa disso.

Como é que eu vou frequentar a Biblioteca Pública do Recife agora? Com aquela cara amarrada de funcionário público? Muito chato! Tédio! Preguiça!

Mudando de assunto, estou muito desanimada, desmotivada e etc porque sigo sem emprego, sem nada, sem dinheiro, sem disposição para continuar nessa vida desregrada. Não tenho ânimo sequer para escrever. O curso que estou fazendo sobre Narrativas Biográficas é ótimo, maravilhoso, inspirador; mas não sei como vou fazer esses exercícios já que me sinto completamente incompetente para fazer qualquer coisa.

Me sinto só. Me sinto trancada nesse mundinho sombrio, chato, tedioso, um saco!
Quero sair, desbravar o mundo, comer comida boa, pizza, tomar um vinho geladinho, uma cerveja, conversar, curtir um som. Mas estou aqui com nada no bolso, devendo a meio mundo de gente.

Ou o cara lá de cima tá me testando, ou ele está só me punindo mesmo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

na exposição de Onildo em Olinda



Eu conheço Onildo há alguns anos e sempre venho ajudando na divulgação do seu trabalho desde que eu conheci as suas artes.

Fiz essa pequena entrevista para que as pessoas que ainda não conhecem a arte de Onildo.

Ele é fã de Pet Shop Boys, e quando eu cheguei lá no Maspe estava tocando as melhores músicas do grupo.

Um museu, alguns judeus, telas no jardim e rolando Pet Shop Boys ao fundo. Por que não?

O coquetel estava recheado de comidas típicas judaicas, feitas pela esposa de Onildo e também suco de goiaba.

Energia maravilhosa.
Bom rever os amigos.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

videoclipes by david dean burkhart XVI



que festa hein!



cenas do filme Scratch Harry ou The Erotic Three produzido em 1969.



Algumas partes do programa de televisão Soul Train no ano de 1974.



Algumas partes de filmes de educação e saúde para meninas das décadas de 1950, 1960 e 1970.

videoclipes by david dean burkhart XV

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

À Procura de Hemingway - Gay Talese

O texto tem cerca de 12 páginas no Word. Quem tiver interessado(a) em receber o arquivo em PDF, mande email para paty.lavir@gmail.com com o assunto "PDF Gay Talese". Ou leia na íntegra aqui:


Lembro-me muito bem da minha primeira impressão de Hemingway, naquela tarde. Era um rapaz de vinte e três anos, extraordinariamente bem apessoado. Foi pouco depois da época em que todo mundo tinha vinte e seis anos. Houve o período dos vinte e seis. Nos dois ou três anos subsequentes, todos os rapazes tinham vinte e seis anos, a idade certa, aparentemente, para aquele tempo e lugar.
Gertrude Stein

Página do manuscrito Goodbye Columbus de Philip Roth,
publicado no número 20 da Paris Review
(Autumn-Winter, 1958-1959).

No início da década de cinquenta, uma nova geração de jovens expatriados americanos completou em Paris vinte e seis anos. Mas já não eram os Rapazes Tristes, nem os Perdidos. Eram os espirituosos e irreverentes filhos de uma nação vencedora e, embora a maioria se originasse de pais abastados e se tivesse diplomado em Harvard ou Yale, pareciam ter grande prazer em fingir-se de pobres, fugir aos credores, talvez por ser uma espécie de desafio, porque isso os distinguia dos turistas americanos a quem desprezavam, e também por ser um meio de caçoar dos franceses, que os desprezavam. Contudo, viviam em alegre miséria na Rive Gauche durante dois ou três anos, entre prostitutas, músicos de jazz e poetas pederastas, envolvendo-se com gente trágica e doida, inclusive um violento pintor espanhol que certo dia abriu uma veia da perna, terminando seu retrato derradeiro com o próprio sangue.

Em julho desciam a Pamplona para correr dos touros e ao regressar jogavam tênis com Irwin Shaw em Saint-Cloud, numa quadra magnífica, dominando Paris. E ao atirarem a bola para servir, viam diante dos olhos a cidade inteira: a Torre Eiffel, o Sacré-Coeur, a Ópera, e ao longe as torres de Notre Dame. Irwin Shaw achava-os divertidos, chamando-os “Rapazes Altos”.

O mais alto de odos, 1,90m, era George Ames Plimpton, rápido e gracioso jogador de tênis, de pernas compridas e magras, cabeça pequena, brilhantes olhos azuis, nariz delicado, de ponta fina. Viera a Paris em 1952 com a idade de vinte e seis anos porque vários dos outros americanos altos e jovens – alguns eram baixos e selvagens – estavam publicando uma revista literária que receberia o nome de Paris Review, sob protestos de um dos membros da equipe, um poeta que queria batizá-la de Druid’s Home Companion e que ela fosse impressa em casca de bétula, George Plimpton foi designado para editor-chefe e breve era visto caminhando pelas ruas de Paris, uma longa écharpe de lã no pescoço, às vezes uma capa negra aos ombros, lembrando a famosa litogravura de Tolouse Lautrec por Aristide Bruant, o brilhanteliterato do século XIX.

Embora grande parte da redação da Paris Review fosse feita nos cafés de rua, enquanto os editores aguardavam a sua vez na máquina de jogo automático, a revista obteve muito sucesso porque os rapazes tinham talento, dinheiro e gosto e evitavam usar vocábulos típicos de revistinhas, como “zeitgeist” e “dicotômico”, e não publicavam críticas herméticas sobre Melville e Kafka, preferindo poesia e ficção de jovens escritores talentosos e ainda pouco conhecidos. Iniciaram também uma excelente série de entrevistas com autores famosos – que os convidavam a almoçar, apresentavam-nos a atrizes, dramaturgos e produtores e depois todos mundo convidava todo mundo para festas, e as festas eram infindáveis. Não terminaram até hoje, embora dez anos se tenham passado, Paris não seja mais cenário e os Rapazes Altos estejam com trinta e seis anos.

Vivem agora em nova York e a maioria das festas acontece no grande apartamento de solteiro de George Plimpton, na Rua Setenta e Dois, dando para o East River, e que é também o quartel-general do que Elaine Dundy chama de “Grupo Literário de Qualidade”, ou o que Candida Donadio, a agente, classifica de a “Turma da Paris Review”. O apartamento de Plimpton é hoje o mais movimentado salão literário de Nova York – o último local onde, permanecendo na mesma sala em qualquer noite da semana, é possível encontrar James Jones, William Styron, Irwin Shaw, algumas bonecas para decorar o ambiente, Norman Mailer, Philip Roth, Lillian Hellmann, um tocador de bongo, Harold L. Humes, Jack Gelber, Sadruddin Aga Khan, Terry Southern, Blair Fuller, o elenco de Beyond the Fringe, Tom Keogh, William Pène du Bois, Bee Whistler Dabney (descendente da mãe de Whistler), Robert Silvers e um zangado veterano da invasão da Baía dos Porcos, uma coelhinha aposentada do Playboy Club, John P.C. Train, Joe Fox, John Phillips Marquand, a secretária de Robert W. Dowling, Peter Duchin, Gene Andrewski, Jean vanden Heuvel, o antigo treinador de boxe de Ernest Hemingway, Frederick Seidel, Thomas H. Guinzburg, David Amram, um barman do centro da cidade, Barbara Epstein, Jill Fox, um distribuidor local de entorpecentes, Piedy Gimbel, Dwight MacDonald, Bill Cole, Jules Feffer. E nesta cena, numa noite de inverno, penetrou uma velha amiga de George Plimpton: Jacqueline Kennedy.

- Jackie! – exclamou George, ao abrir a porta e dar com a Primeira-Dama, acompanhada da irmã e do cunhado, os Radziwills. A Sra. Kennedy, sorrindo amplamente, entre dois cintilantes brincos, estendeu a mão a George, a quem conhece desde os tempos de infância, e conversaram alguns minutos no hall, enquanto George a ajudava a despir o casaco. Depois, espreitando para o quarto e reparando numa pilha de sobretudos mais alta que um Volkswagen, a Sra. Kennedy falou, numa voz suave, cheia de simpatia:

- Oh George! A sua cama!

George deu de ombros e escoltou-os pelo hall, descendo três degraus até a sala enfumaçada.
- Olhe, - disse uma boneca, a um canto – lá está a irmã de Lee Radziwill!

George apresentou primeiro Ved Mehta, o escritor indiano, à Sra. Kennedy, depois esgueirou-se habilmente com ela por Norman Mailer, seguindo em direção a William Styron.

- Olá, Bill – disse ela, apertando-lhe a mão. – É um prazer vê-lo. Conversando com Styron e Cass Canfield, a Sra. Kennedy ficou de costas para Sandra Hochman, poetisa de Greenwich Village, loura oxigenada, vestindo um grosso suéter de lã e calças de esqui parcialmente abertas.

- Creio que estou um pouco déshabillée – murmurou a Srta. Hochman a um amigo, com sinal de cabeça para o belo terninho em brocado branco da Sra. Kennedy.

- Tolice – disse o amigo, jogando cinza de cigarro no tapete.

E para falar a verdade é preciso dizer que nenhuma das setenta pessoas presentes na sala achou que os trajes de Sandra Hochman contrastassem de maneira desagradável com os da Primeira-Dama; de fato, alguns nem a notaram, e houve quem a visse, sem a reconhecer.

- Ora, - falou, alguém espreitando através a fumaça em direção ao complicado penteado da Sra. Kennedy – aquilo é moda este ano, não é? E aquela garota quase acertou.

Enquanto a Sra. Kennedy conversava a um canto, a Princesa Radziwill batia um papo com Bee Whistler Dabney, pouco adiante, e o Príncipe Radziwill permanecia sozinho junto ao piano de cauda, cantarolando baixinho, como faz com frequência em reuniões. Em Washington, é conhecido como um grande cantarolador.

Quinze minutos após, a Sra. Kennedy, que era aguardada num jantar oferecido por Adlai Stevenson, despediu-se de Styron e Canfield, e, acompanhada de George Plimpton, dirigiu-se aos degraus que levavam ao hall. Norman Mailer, que entretanto bebera três copos de água, estava junto aos degraus e fitou-a com fixidez quando ela passou. Jacqueline não retribuiu o olhar.

Três rápidos passos e ela desapareceu – transpôs o hall, vestiu o casaco e as longas luvas brancas, e desceu dois lances de escada até a calçada, sequida pelos Radziwills e George Plimpton.

- Vejam! – gritou uma loura, Sally Belfrage, olhando da janela da cozinha para as pessoas que entravam na limusine. – Lá está George! E veja que carro!

- Que é que há de extraordinário no carro? – perguntou alguém. – É apenas um Cadillac.

- Sim, mas é preto e não tem enfeites cromados.

Sally Belfrage viu o grande veículo, apontando na direção de um outro mundo, deslizar macio para longe, mas na sala a festa continuava mais animada que nunca, e quase ninguém notou que o anfitrião desaparecera. Mas havia bebida e bastava lançar um olhar às fotos das paredes para sentir a presença de George Plimpton. Uma fotografia mostra-o toureando pequenos touros na Espanha, com Hemingway. Outra surpreendeu-o bebendo cerveja com os “Jovens Altos” num café parisiense. Outras exibem-no como tenente, marchando com um pelotão pelas ruas de Roma. Ou como tenista do King’s College, lutador amador, sparing para Archie Moore no Ginásio Stillman, ocasião em que o cheiro a ranço do local foi temporariamente substituído pelo perfume a almíscar do El Morocco e os aplausos dos amigos de Plimpton quando ele conseguiu um golpe certeiro, rapidamente transformado num “Ohhhhhhhh” quando Archie Moore rebateu com um soco que quebrou em parte a cartilagem do nariz de Plimpton, fazendo-o sangrar e levando Miles Davis a perguntar depois:

- Archie, esse sangue nas suas luvas é negro ou branco?

Ao que um dos amigos de Archie replicou: - Senhor, isto é sangue azul.

Na parede vê-se ainda um rebab, instrumento de uma corda, feito de couro de bode, e que os beduínos lhe ofereceram antes que ele fizesse um pequeno papel em Lawrence of Arabia, durante uma tempestade de areia. E sobre o piano de cauda – ele toca bastante bem para ter conquistado um terceiro prêmio, na Noite dos Amadores, no Teatro Apolo, cerca de dois anos passados, na Harlem – vê-se um coco que lhe foi enviado por uma nadadora que ele conheceu em Palm Beach, e também a fotografia de outra jovem, Vali, existencialista de cabelos cor de laranja, conhecida de todas as concierges na Rive Gauche como la bête; e também um bastão de basebol, que Plimpton ocasionalmente atira do lado oposto do living, a uma poltrona baixinha, gorda e acolchoada, usando o mesmo desabafo que quando praticava contra Willie Mays ao pesquisar para seu livro Out of My League, sobre os sentimentos de um amador entre profissionais – e que, aliás, é uma chave não só para George Ames Plimpton, como também para vários outros da Paris Review.

Vários deles vivem obcecados pelo desejo de saber como viver a outra metade. Assim travam amizade com as figuras mais interessantes entre os excêntricos, evitamos chatos de Wall Street e mergulham no mundo dos traficantes, pederastas, boxadores e aventureiros, em busca de emoções e literatura, influenciados talvez por aquela gloriosa geração de motoristas de ambulância que os precedeu em Paris, aos vinte e seis anos.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

como registrar atividades de lazer de forma divertida



Uma forma de registrar as atividades de lazer de uma forma divertida.

Na correria da rotina, a gente nem pensa em fazer certas atividades de lazer. Todos nós precisamos, em algum momento, desestressar e desopilar a mente. Mas nem sempre a gente lembra dessas atividades.

Dessa forma, a gente consegue lembrar das boas atividades para praticar e ainda registrar essas atividades de lazer de uma forma divertida.

Legal também para fazer com as crianças.

E tenho um vídeo aqui mostrando algumas páginas do meu bullet journal.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Como me organizo diariamente?



Em breve farei um outro vídeo mostrando como eu faço esse "spread".

O fato é que eu utilizo cadernos tamanho A6 pois acho mais prático, e por um caderno pequeno, utilizo duas páginas a cada semana. Este caderno fica no meu traveler's notebook.

Faço checklist para todos os dias da semana, inclusive os fins de semana e também anoto os meus compromissos e eventos.

Tenho um checklist específico para coisas que eu devo fazer todos os dias, como estudar, ler, praticar exercício, dormir cedo ou qualquer outra coisa que eu queira fazer todos os dias durante aquela semana, como por exemplo, ler um conto por dia do Esopo.

Tem uma outra sessão que é praticar a técnica Pomodoro. A técnica pode servir para várias finalidades como por exemplo, fazer artesanato, costurar e trabalhar. Eu utilizo para estudar inglês, espanhol e narrativa (um curso online). E basicamente eu tenho o objetivo de preencher 4 pomodoros em cada estudo.

Nunca completo, mas seriam 5 horas por semana de estudo.

sábado, 2 de setembro de 2017

videoclipes by david dean burkhart XV



Cenas em 8mm de alguns jovens de Janeiro a Setembro de 1976.



Cenas do filme The Crowd (A Turba / 1928) do diretor King Vidor.
Drama mudo norte-americano.



Day in and day out
Flat sky and cookie-cutter town

Sublimation
If you want it
Entertainment
Bright and shining

Chained to a wall inside a cave
And all we ever see is the shadows play

That’s no life

Sublimation
Corporate largesse
Entertainment
I don’t care for it

That’s no life



Interessante ver como era a Disney, mesmo que eu não saiba como é hoje, rs.

videoclipes by david dean burkhart XIV

terça-feira, 29 de agosto de 2017

curioso e medroso



Finalmente eu editei esse vídeo!

Meu gato sempre sente necessidade de um passeio. Nem sempre quando ele pede eu vou. Antigamente ele só saía à noite. Ultimamente ele pede quando dá na telha.

Não mostrei no vídeo mas ele correu de um cachorro que estava à passeio com a dona. Depois a dona pegou a outra cadela mais velha pra passear e dessa vez ele só ficou olhando. Fiquei com certa vergonha de filmar eles.

Nem sempre ele desce até o estacionamento, mas ele é muito mais curioso que medroso e se arrisca.

*  *  *

Descobri recentemente que todos os comentários estavam na caixa de spam, e fui lá "tirar" eles do spam, mas acabei sem querer excluindo alguns comentários. Parece que apesar de estarem na caixa de spam, estava aparecendo. Enfim, me confundiu.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Gaúcho - José de Alencar | Manuel Canho e seus amigos cavalos


Estamos em 1832 e conhecemos nosso protagonista Manuel Canho - o gaúcho. Ele nos apresenta um personagem sério, determinado, simples, de postura reta e decidido à sua missão.

Sua missão é vingar a morte do pai. João Canho foi assassinado na frente do filho em 1820, quando o gaúcho tinha apenas 8 anos e tinha o maior orgulho do pai.

O gaúcho parte determinado a vingar a morte do pai e sai montado em seu cavalo Morzelo, personagem que por assim dizer, já vingou a morte do seu dono João Canho. No meio do caminho ele encontra a selvagem Morena. Mãe selvagem prisioneira à procura de seu poldrinho.

Muito interessante como os animais aqui são também personagens, e personagens muito presentes e importantes para o curso da estória. Animais com sentimentos humanos ou talvez sentimentos que ignoramos que os animais possam ter. Para mim, foi o que tornou este livro mais especial.

Temos, em meio a esta estória de vingança, uma estória de amor que foi se construindo aos poucos. Catita é uma personagem com vontade de amar, e desde o início declarou o seu interesse por Manuel. Porém Manuel não retribuiu, riu-se de sua paixão - ele só tinha olhos para a vingança. Mas posteriormente ele se encontra também apaixonado por ela. Algumas coisas acontecem para impedir essa paixão.

Não quero entrar em detalhes em relação a tudo que acontece. Mas é preciso dizer que temos muitas ações neste livro muito interessantes: ações, aventuras, dramas.

Nós estamos diante de costumes muito antigos, de paisagens limpas e puras, de personagens com valores agora muito distantes. O autor descreve muito bem a paisagem sulista, e muito bem as vestimentas. Vamos nos deparar com palavras talvez desconhecidas para alguns leitores como "coxilha", "piquete", entre outros.  

É preciso dizer que há um contexto histórico muito importante neste livro. Como disse, conhecemos o protagonista em 1832 e neste ano já se discute sobre a revolução com o objetivo de instalar a República. Isso influencia os personagens e indiretamente Manuel, que começa a trabalhar para Lucas Fernandes (pai de Catita). Em 1835 começa a Guerra dos Farrapos.

Personagens muito bem construídos, eventos isolados muito importantes para a construção da estória, a humanização dos animais, a maternidade (relação de mãe e filho), ambientes e vestimentas muito bem descritos, discussão política e contexto histórico.

É um livro imperdível para nós brasileiros.


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José de Alencar nasce em 1829 no Ceará e morre no Rio de Janeiro em 1877 de tuberculose. Escreve O Gaúcho em 1870 e usa o pseudônimo "Sênio" a partir de então.

Alencar cursou Direito, foi deputado, redator-chefe de jornal, Ministro da Justiça. Escreveu críticas, peças de teatro, crônica, autobiografia e 19 romances. Seu apelido em casa era Cazuza.


Fotos da edição do livro de 1953.
Trechos do livro O Gaúcho.