terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dr. Cláudio sobre a arte em geral - Trecho de O Ateneu

"Arte, estética, estesia é a educação do instinto sexual.

A manutenção da existência indivídua tem a razão de ser no instinto de vitalidade da espécie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolífica do passado com a posteridade. E a razão de ser das espécies? A indagação não perscruta.

Para que o indivíduo perdure, momento genésico da existência específica no tempo, é indispensável adaptar-se às imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem pode sofismar o obstáculo do menor rochedo no alvéu. O critério inconsciente do instinto é o guia da adaptação.

O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais cômoda para morrer, é a seleção do agradável. Os sentidos são como as antenas salvadoras do inseto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores oportunos e cautelosos.

A cada mundo de sensações notáveis corresponde um sentido. Os sentidos, teoricamente delimitados, são cinco, múltipla transformação de processo de um único - o tato, exatamente o sentido rudimentar das antenas.

Faz-se, tateando instintivamente a procura dos agradáveis: agradável visual, agradável gustativo, agradável tangível, em suma. O agradável é essencialmente vital; se é às vezes funesto, é porque o instinto pode ser atraiçoado pelas ilusões.

A perfectibilidade evolutiva dos organismos em função, manifestando-se prodigiosamente complexa, no tipo humano, corresponde à revelação, na ordem animal, do misterioso fenômeno personalidade, capaz de fazer a crítica do instinto, como o instinto faz a crítica sensação.

A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a atividade cerebral dos impulsos de preferência, de repugnância, simplesmente, como nos outros animais; mas amplia, pela psicologia inteira dos fenômenos espirituais, a variedade infinita das comparações permutadas de mil modos na unidade do espírito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo pano.

Duas são as representações elementares do agradável realizado: nutrição e amor.

Os animais inferiores, não favorecidos por um razoável coeficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade; olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrúpulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.

O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução histórica da humanidade.

A nutrição reclamou a caçada fácil - inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquila e a perfilhação sem sobressaltos precisaram de proteção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores - os homens tacitamente se contrataram para o seguro mútuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrela Vésper, expandida e pálida como o suspiro.

Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvessem marfim, metais luzentes, pedraria, sobre a alvura láctea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, como requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os íncolas mais raros, emplumados de luz como criações canoras do sol; e foram buscar às ondas os meus esquivos viajores do abismo, singrando céleres, fantásticos, na sombra azul, em cauda, um reflexo vago de escamas - para morder-lhes a vida.

Urgiu ainda a fome, urgiu o amor e veio a guerra, a violência, a invasão. Curvaram-se os cativos ao látego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garra da lascívia sanguinária, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, lábios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miserável de espasmos. Formaram-se os ódios de raça, as opressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidas.

Mas a cisma evoluiu também, aquela cisma poética da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idílios. O fundo tranquilo e obscuro das almas, aonde não chefa o tumultuar de vagas da superfície, inflamou-se de fosforescências; geraram-se as auréolas dos deuses, coalharam-se os discos das glórias olímpicas: as religiões nasceram.

Mas era preciso que fosse palpável o espectro da divindade; as rochas descascaram-se em estátuas, os metais se fizeram carne e houve cultos, houve leis, vieram profetas e pontífices ambiciosos. E esta evolução da cisma que fora amante, feita instrumento da tirania, deu lugar às práticas de terror, aos apostolados do morticínio.

Mas uma lira ficara da geração primeira de cismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéias do Oriente e da Grécia. Roubou-se aos sacerdotes tiranos o monopólio dos deuses para jungi-los à atrelagem do metro; o que levassem, através dos séculos, o carro triunfal da estrofe, onda sonora de vibrações imortais.

E os esculpidores dos ídolos legaram o segredo da fábrica revelando que vinham de uma molde de barro aquelas arrogâncias de bronze, que se fazem deuses como as ânforas. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelo muros, as visões místicas da crença.

A nitidez artística da formas fizera crer aos homens que morava realmente um espírito sagrado na porosidade do mármore, e que realmente havia proporções infinitas uma tela de olimpos e paraísos, onde as cores do antropomorfismo artístico viviam soberanas, olhando o mundo lá embaixo, vazando a urna providencial das penas e das alegrias.

Decaídas as fantasias sentimentais, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como efeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em princípio: chamou-se indústria, chamou-se economia política, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alcançando a bandeira negra do darwinismo espartano, a civilização marcha para o futuro, impávida, temerária, calcando aos pés o preconceito artístico da religião e da moralidade.

Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lira...

Reinou primeiro o mármore e a forma; reinaram as cores e o contorno, reinam agora os sons - a música e a palavra. Humanizou-se o ideal. O hino dos poetas do mármore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado enérgico do sentimento.

Sonho, sentimento artístico ou contemplação, é o prazer atento da harmonia, da simetria, do ritmo, do acordo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.

A história do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.

Dividindo-se as sensações em cinco espécies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco espécies e igualmente as obras de arte.

Da sensação acústica vem a estesia acústica: sentimento nos sons, nas palavras - eloqüência e música; da sensação da vista, a estesia visual, o sentimento na forma, no traço e no colorido - escultura, arquitetura, pintura; da sensação palatal e olfativa nasce o sentimento do gosto e do perfume - artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus efeitos. A sensação do tato, secunda por todas as outras, dá lugar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as espécies de estesia.

O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da estética, no gozo visual das linhas da formosura, na delícia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emitida com expressão, na comoção de um contato, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra de arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.

Depois da arte primitiva e fundamental do tato, a arte do ouvido. A obra de arte é a fresa sentida, hábil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.

Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloqüência propriamente e poesia popular, graças à aproximação híbrida de terceira arte, do ouvido, a música.

Com o progresso humano, o sentimento artístico da simetria e da harmonia destacou-se analiticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente imediata do instinto erótico, da qual se desprendera, sob a forma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloqüência; e; em seguida, sob a forma de expressões homométricas, a poesia popular e a primeira música; nasceram as artes intencionais, de imitação, da escultura da arquitetura, do desenho. Depois da poesia popular amorosa ou heróica, veio a rapsódia.

Ainda mais, segundo um traçado naturalíssimo de filiação, o sentimento da simetria, trasladado para a esfera das relações sociais, serviu de plano à organização das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predomínio insensato das religiões, o amor deixou de ser um fenômeno, passou a ser um ridículo ou uma coisa obscena.

Por um raciocínio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organização simétrica da fraqueza comum, que a religião é a organização simétrica do terror, que a simetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artística das imitações plásticas da ingênua admiração da criatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estátua, por um canto popular ou por uma interjeição veemente, nada mais é do que um modo acentuado de um esforço de atenção, e que a primeira atenção dos homens do princípio - a lenda de Adão que o diga - devia ser do indivíduo de um sexo pra o indivíduo de outro sexo, teremos averiguado o aforismo paradoxal de que a arte subjetivamente, o sentimento artístico, nas suas mais elevadas, mais etéreas
manifestações, é simplesmente - a evolução secular do instinto da espécie.


Esta é a sua grandeza, e por isso vai zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos próprios exasperos homicidas do amor.

A arte é primeiro espontânea, depois intencional.

Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloquência rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por efeitos de cálculo e meditação e dá o epos¹, a eloquência culta, a música desenvolvida, o desenho, a escultura, a arquitetura, a pintura, os sistemas religiosos, os sistemas morais, as ambições de síntese, as metafísicas, até as formas literárias modernas, o romance, feição atual do poema no mundo.

As manifestações espontâneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desaparece, nem a eloquência, ainda menos o amor. As manifestações intencionais, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacilações de tudo que progride.

O coração é o pêndulo universal dos ritmos. O movimento isócrono do músculo é como o aferidor natural das vibrações harmônicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Há estados de alma que correspondem à cor azul, ou às notas graves da música; há sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonizam no sentimento com a mais vívida animação.

A representação dos sentimentos efetua-se de acordo com estas repercussões.

O estudo da linguagem demonstra.

A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instintivamente do sentimento, sujeita-se à variedade cromática do timbre como os sons dos instrumentos de música. Gradua-se, em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediários, que o sentimento da eloquência sugere aos lábios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver a expressão, sensivelmente enérgica, emancipada do preceito pedagógico, de improviso, quase inventada pelo momento.

Há ainda na linguagem o ritmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocábulos, como nos dicionários. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.

O que move o ouvinte é uma impressão de conjunto. O sentimento de uma frase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.

O timbre vogal, o ritmo da frase dão alma à elocução. O timbre é o colorido, o ritmo é a linha e o contorno. A lei da eloquência domina na música, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na escultura, na arquitetura, na pintura: ainda a linha e o colorido.

Na sua qualidade de representação primária do sentimento, depois do fato do amor, a eloquência é a mais elevada das artes. Daí a supremacia das artes literárias - eloquência escrita.

A eloquência foi a princípio livre, fiel ao ritmo do sentimento, influenciada pela música monótona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monótono como a musica. Aproveitada como recurso mnemônico, libertou-se da música, guardando, porém, a forma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da sílaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade de rima, o calembur feito milagre de perfeição.

A música seguiu à parte a sua evolução.

Na arte da eloquência da atualidade acentua-se uma reação poderosa contra o metro clássico; a crítica espera que dentro de alguns anos o metro convencional e postiço terá desaparecido das oficinas da literatura. O sentimento encarna-se na eloquência, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estilo derribou o verso. As estrofes medem-se pelos fôlegos do espírito, não com o polegar da gramática.

Hoje, que não há deuses nem estátuas, que não há templos nem arquitetura, que não há dies irae² nem Miguel Ângelo; hoje que a mnemônica é inútil, o estilo triunfa pela forma primitiva, pela sinceridade veemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura às quatro dificuldades de um soneto.

Qual a missão da arte? Originária da propensão erótica fora do amor, a arte é inútil - inútil como o esplendor corado das pétalas sobre a fecundidade do ovário. Qual a missão das pétalas coradas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves?  A arte é uma consequência e não um preparativo. Nasce do entusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o atesta. Agrada sempre, porque o entusiasmo é contagioso como o incêndio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar. 

E, depois, reclamar títulos de utilidade às divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a própria perpetuidade da espécie?!

Além de inútil, a arte é imoral. A moral é o sistema artístico da harmonia transplantado para as relações da coletividade. Arte sui generis³. Se é possível eficazmente o regime social das simetrias da justiça e da fraternidade, o futuro há de provar. Em todo o caso é arte diferente e as artes não se combinam senão em produtos falsos, de convenção.

Poema intencionalmente moral é o mesmo que estátua polícroma, ou pintura em relevo. Apenas uma coisa possível, nada mais; há também quem faça flores, com asas de barata e pernas.

A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o indivíduo sem atender à existência de outro indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Lêda; pode ser cruel: Roma em chamas, que espetáculo!

Basta que seja artística.

Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana - acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.

E desdenha dos séculos efêmeros."

¹ Epos - termo de origem grega que designava de início a palavra, o discurso; depois passou a indicar o discurso heróico, principalmente os poemas homéricos - a Ilíada e a Odisséia. Foi nesse sentido de poema épico, epopéia, que a palavra foi incorporada pelo latim.


² Dies irae - locução latina, significa "dia da ira" ou "dia do juízo final".

³ Sui generis - expressão latina que significa próprio, específico, singular, peculiar.


O Ateneu / Raul Pompéia; organização Célia A. N. Passoni - 2ª ed. - São Paulo: Núcleo, 1996. - (Coleção Núcleo de Literatura). 

Trecho: 80-85

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A morte como conselheira

Meu pai compartilhou esse texto comigo e resolvi compartilhar aqui


Rubem A. Alves
Lembra-te,
Antes que cheguem os maus dias, e se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro,
E se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço...
Elesiastes 12, 1-8

A vida está cheia de rituais para exorcizar a morte. E, no entanto, é tudo mentira. Certo está o poeta.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei; o que só agora vejo que deveria ter feito, o que só agora claramente vejo que deveria ter sido isto é que é morto para além de todos os Deuses...

Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-os no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos... (Álvaro de Campos, Poesias, “Na noite terrível...”)
Não, não, a Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver.
O que ela diz? Coisas assim.
“Bonito o crepúsculo, não? Veja as cores, como são lindas e efêmeras... Não se repetirão jamais. E não há formas de segurá-las. Inútil tirar uma foto. A foto será sempre a memória de algo que deixou de ser... E esta triteza que a beleza dá? Talvez porque você seja como o crepúsculo...
É preciso viver o bastante. Não é possível colocar a vida numa caderneta de poupança...”
“Você sabe que horas são? Está ficando frio... E as cores do outono? Parece que o inverno está chegando...”

“O que é que você está esperando? Como se a vida ainda não tivesse começado... Como se você estivesse à espera de algum evento que vai marcar o início real da sua vida: formar, casar, criar os filhos, separar da mulher ou do marido, descobrir o verdadeiro amor, ficar rico, aposentar... Como se os seus instantes presentes fossem provisórios, preparatórios. Mas eles são a única coisa que existe...”
A branca fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos.

A morte tem o poder de colocar todas as coisas nos seus devidos lugares. Longe do seu olhar, somos prisioneiros do olhar dos outros, e caímos na armadilha dos seus desejos. Deixamos de ser o que somos, para ser o que eles desejam que sejamos. Diante da Morte, tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar para mentiras. E a gente se defronta então com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso à nossa Verdade, para ouvir de novo a voz do Desejo mais profundo, é preciso tornar-se um discípulo da morte. Pois ela só nos dá lições de Vida se a acolhemos como amiga. “A morte é nossa eterna companheira” – dizia D. Juan, o bruxo. “Ela se encontra sempre à nossa esquerda, ao alcance do braço. Ela nos olha sempre, até o dia em que os toca. Como é possível a alguém sentir-se importante, sabendo que a morte o contempla? O que você deve fazer, ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para a sua esquerda e pedir que sua morte o aconselhe. Estamos cheios de lixo! E a morte é a única conselheira que temos. Sempre que você se sentir, como acontece sempre, que tudo está indo de mal a pior e que você se encontra a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua morte e lhe pergunte se isso é verdade. Sua morte lhe dirá que você está errado, que nada realmente importa, fora do seu toque. Ela lhe dirá: Ainda não o toquei”.

Houve um tempo em que nosso poder perante a Morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a Morte foi definida como a inimiga a ser derrotada fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de sou toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...), mais tolos nos tornamos na arte de vier. É, quando isso acontece, a Morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que, para recuperar um pouco da sabedoria de vier, seria preciso que s tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas, para isso, seria preciso abrir espaço em nossas idas para ouvir a sua voz. Seria preciso que voltássemos a ter os poetas...

“Extraído de: ALVES, Rubem A. – A Morte como conselheira. IN: CASSORLA, Roosevelt M. S. (Coord.). Da Morte: Estudos Brasileiros. Campinas: Papirus, 1991. Pg 11 – 15.”

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Filosofia

"O seu modo de vida pode ser universalizável? A forma como você vive poderia ser boa para todas as pessoas? Todas as pessoas agem desse jeito? A sociedade se manteria? Esse tipo de jogo que o Kant pedia era um jogo de imaginação de imaginar que o absurdo de todo mundo seguia sua própria máxima, se aquilo poderia valer pra todo mundo. 

Eu acho que esse tipo de jogo já está pressuposto, por exemplo, lá no Aristóteles quando ele fala no desenvolvimento das virtudes. Ele pensa cada ser humano como uma planta que ela tem que desenvolver todas as suas potencialidades. Só que existem plantas com algumas diferenças, mas as condições para o desenvolvimento devem ser as mesmas. 

Um filósofo como Mahbub ul Haq (???) faz a parte da ideia de índice do desenvolvimento humano do Amartya Sen da economia algo bem interessante. Não basta distribuição de renda, você tem que dá condição pra que toda pessoa desenvolva suas potencialidades. Não só condições de saúde, de educação, mas também de participar do debate social, participar do jogo da razão de forma pública. Numa ditadura você não conseguiria fazer isso. Mesmo numa democracia você não consegue participar do jogo porque depende de qual empreiteira você é dono [risos] de quantas vagas no Congresso você consegue comprar pra sua casa... mas isso é outro detalhe. [...] 

Todas as sociedades-nações foram fundadas na leitura de certos livros: literatura... O fato de você compartilhar uma língua geralmente era o que unia uma nação. Agora a gente chegou num ponto que as pessoas não estão mais lendo nada. [...]

Talvez a vantagem da filosofia seja essa vantagem de tentar... essa ilusão do universal faz com que muitas vezes essa filosofia julgue o certo e o errado. Nossa tendência é sempre fazer esse tipo de julgamento e a filosofia serve de justificativa pra esse tipo julgamento. E esse julgamento já permite a ação. Por exemplo, um antropólogo vai trabalhar muito descrevendo as coisas como são, um antropólogo vai sempre descrever as coisas e não vai julgá-las. Por exemplo, um antropólogo pode ir no morro carioca e descrever tudo o que tá acontecendo lá no funk e ver todos os aspectos... a função social daquilo. Um filósofo vai sempre querer julgar se isso é bom, se isso é ruim. Qual é a conseqüência daquele tipo de valor e vai ter juízos parciais, mas ele vai querer fazer o julgamento."
 (sic)


Marcos Carvalho Lopes 
no 1º podcast do Filosofia Pop