quarta-feira, 31 de julho de 2013

Fuga - Fernando Sabino


Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.

- Pára com esse barulho, meu filho – falou, sem se voltar.

Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.

- Pois então pára de empurrar a cadeira.
- Eu vou embora – foi a resposta.

Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da dispensa? – a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.

A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:

- Viu um menino saindo desta casa? – gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.

- Saiu agora mesmo com uma trouxinha – informou ele.

Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e – saíra de casa prevenido – uma moeda de 1 cruzeiro. Camou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.

- Meu filho, cuidado!

O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:

- Que susto que você me passou meu filho – a apertava-o contra o peito, comovido.
- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.

Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:

- Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
- Me larga. Eu quero ir embora.

Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da dispensa.

- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.

E o barulho recomeçou.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

25 de agosto - O Dia do Chacal

Sinopse

Irresistivelmente charmoso, Chacal é o matador de aluguel contratado para por fim à vida do General Charles de Gaulle. Seu desafio é burlar a fantástica muralha de segurança que cerca o presidente francês. A OAS, Organização do Exército Francês, facção de extrema direita contrária à independência da Argélia, decide que o general Charles de Gaulle precisa morrer. Acontece que a segurança do presidente francês é uma das melhores do mundo, praticamente intransponível. Por isso não bastava um plano excepcional para assassinar o general. Era preciso encontrar o homem certo, o único capaz de conseguir essa proeza. Ele é o Chacal, um assassino sem identidade, que trabalha nas sombras e mata sem titubear quem atravessa seu caminho. A fantástica trama e o trabalho do enigmático personagem conseguem prender a atenção do leitor com inigualável competência, fazendo com que as quase 500 páginas do livro sejam praticamente lidas de uma só vez. Inspirado em personagens reais e resultado de anos de pesquisa, "O Dia do Chacal" é o primeiro bestseller de Forsyth. 

O Dia do Chacal de Frederick Forsyth foi um dos melhores livros que eu já li em questões de narrativa e enredo.

O autor
Nasceu em 1938 na Inglaterra. Começou a trabalhar como piloto de avião comercial e tinha como sonho viajar e ser correspondente no exterior. Foi o que fez. Tentou carreira no jornalismo e se tornou correspondente de uma agência em Paris onde acompanhou o caso político do país. E foi assim que ele conseguiu um ponto de partida para o seu livro O dia do Chacal (The day of the Jackal).
A experiência de ser correspondente em Paris o fez entrar em contato com o drama político internacional tornando-o obsessivo. Acumulou pilhas de papel com anotação sobre o caso antes de começar a escrever o livro.
Como repórter, Forsyth ficou famoso por sua extraordinária acuidade, além de escrever com muita rapidez - embora só com dois dedos - e por isso sua profunda admiração pelos mestres do romance policial, principalmente o fracês Georges Simenon.
Ao observar os serviços de segurança ao redor do General De Gaulle, Forsyth imaginou se seria possível burlá-los. "Era um exercício acadêmico" - diz o escritor - "como faria para atravessar esses círculos concêntricos de segurança?" E foi assim que nasceu a ideia em 1963 em escrever seu primeiro livro.
Qual é o segredo desse livro? O autor responde que são os detalhes de todo tipo, ser meticuloso. O segredo é ser fiel à realidade. Assim como o faz Stieg Larsson, onde os detalhes existem e certa parte ali escrita é não-ficção, como a conspiração em torno desse caso político da França.
Pensei que ele tinha morrido, mas tá vivo com 74 anos.

Enredo e narrativa
A narrativa traz detalhes que de longe parecem ser desnecessárias, mas percebemos o quanto elas são importantes para a leitura se tratando de Frederick Forsyth.
Ela é escrita em forma de diário tendo o primeiro dia, a primeira semana e datas enfim (nesse sentido), mas é escrita em terceira pessoa.
Voltando ao enredo. Mesmo o presidente da França tendo muitos inimigos é a OAS que toma a iniciativa de acabar com o poder do presidente e tomar o seu lugar (que era a missão primordial do general Gaulle), porém a segurança em torno do presidente era a melhor do mundo e 6 tentativas contra a sua vida foram em vão, por vários motivos, tanto pela segurança, quanto por traição e por negligência (até mesmo por um detalhe pequeno e bobo).
A Organização foi se tornando mais fechada e o "cabeça" Rodin resolveu fazer tudo diferente dessa vez. Rodin queria contratar um "hitman" fora de seu país que não tenha ligação com a França emocionalmente, politicamente nem nada. Um assassino frio que faria aquilo por dinheiro, diferente daqueles que tentaram anteriormente bufando ódio contra o presidente da França.
E foi assim que eles contrataram o homem de codinome Chacal. Um possível inglês que, em suas outras missões, praticamente não falhara e nunca fora pego.
Não posso mais falar porque a partir daí pode ser spoiler.

Frederick Forsyth e Stieg Larsson
Narrativa - Percebi uma semelhança com o sueco Stieg Larsson na trilogia Millenium que, assim como o Forsyth, era jornalista e escritor. Não sei se é por esse fato, mas essa forma de diário escrito em terceira pessoa cronologicamente marcado se tornaram uma semelhança absurda. A única diferença é que Larsson divide o enredo em capítulos com datas enquanto o Forsyth divide em sua própria narrativa que para mim torna a leitura mais coerente. Eu, sinceramente, quando tou lendo A Menina que Brincava com Fogo esqueço às vezes de ler o capítulo (que é uma data). Mas isso também não torna a leitura menos compreensível.
As quebras de página para narrar algo que está acontecendo naquela hora mas em outro lugar também está presente nas duas narrativas. Enquanto vamos sabendo do plano do Chacal, paralelamente estamos sabendo do plano de segurança do presidente. Ou seja, o leitor é onipresente. 
Larsson também faz isso, mas de forma mais sutil, com menos detalhes e mais informações.
Se alguém me perguntasse assim:
Paty, qual dessas histórias te deixou mais próxima do enredo?
Eu responderia imediatamente O dia do Chacal.
Acho que Larsson teve uma grande influência do Frederick Forsyth. Provavelmente ele foi muito fã desse escritor e isso se refletiu na narrativa da trilogia Millenium.
Mas tudo isso pode ser viagem minha. Eu li O dia do Chacal enquanto lia A menina que brincava com fogo e enfim, talvez seja isso. Pela semelhança, não leia os dois juntos, com certeza você vai deixar uma delas de lado e eu preferi O dia do Chacal. Apesar de ser muito fã da trilogia, virei fã do Forsyth!

Chacal
Para mim, Chacal é um personagem fantástico. Ele é inteligente, calculista, bonito, elegante, charmoso, frio, forte e... vamos à citação onde o autor narra a intimidade da baronesa tendo relação sexual com Chacal:
Tinha sido muito bom. E esse primitivo inglês fora um tanto enérgico mas muito experiente, sabendo usar os dedos, a língua e o pênis para provocar cinco orgasmos nela e três nele. Sentia ainda o abrasador calor que a dominara quando ele chegava ao fim, e sabia que tinha precisão de uma noite como aquela, há tanto tempo, que mostrara uma reação que em muitos e muitos anos nunca sentira.

Filme
Infelizmente eu estava tão ansiosa para comentar sobre o livro que não esperei para assistir ao filme. Ou aos filmes, já que são dois.
O filme, pelo que me contaram, teve muitas críticas negativas por parte dos leitores. 
Assim como foi difícil transformar Millenium em filme, O Dia da Chacal deve ter sido muito mais complicado. Eu sei que em Millenium, muitas coisas não foram para o filme e algumas coisas foram adicionadas. Eu não me senti traída, porque livro e audiovisual são veículos diferentes.
No caso dO Dia do Chacal, eu acredito que muita coisa foi tirada, mas não vejo motivo de acrescentar cenas que não tem no livro. Por causa dos detalhes e do enredo do autor. 
Vou assistir ao(s) filme(s) e depois, quem sabe, eu volto pra comentar.
Primeira versão - pelo trailer parece ser mais fiel.
Segunda versão - parece ter acrescentado algumas cenas, com certeza. Mas Bruce Williams como Chacal ficou perfeito. Bem parecido como imaginei.

Para quem leu o livro e quiser discutir o final, é só colocar nos comentários. Louca pra assistir aos filmes pra saber como eles interpretaram o final.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Fernando Sabino e A Vitória da Infância

Oi você fantasma que lê meu blog. Porque sim, eu escrevo pra ninguém e tou quase desistindo de fazer atualizações.

Hoje não vim apenas para atualizar o blog, como também para apresentar um livro a vocês que eu li do Fernando Sabino. Sabino nasceu em BH em 1923 e morreu no Rio de Janeiro no dia 11 de outubro de 2004. Ele foi escritor e jornalista (apesar de ter sido bacharel em Direito).

Aos 13 anos publicou seu primeiro conto e aos 15 já escrevia artigos, contos e crônicas para revistas literárias. Seu primeiro romance foi O encontro marcado (1956) e com O grande mentecapto (1979) recebeu prêmio Jabuti.

Fernando Sabino escreveu livros nos gêneros contos, crônicas, novelas e romances. Algumas coisas como como palavras, gestos, fatos "banais", cenas do cotidiano se tornam significativos em seus textos. O autor mistura realidade e ficção que torna várias situações interessantes com humor e simplicidade.

Sua linguagem é bem leve, simples e gostosa de ler. É possível ser lido de crianças à pessoas idosas e a leitura vai fluir.

A vitória da infância é uma coletânea de textos sobre a infância e do universo infantil sob a ótica do adulto. Neste livro você vai encontrar contos/crônicas (textos curtos, rs) onde você vai rir com as traquinagens das crianças, da simplicidade e ingenuidade delas. Também vai encontrar os adultos, principalmente o pai, meio infantil, meio nostálgico e até mesmo em um universo ingênuo.

No fim de um texto você pode ainda estar rindo, mas quando passa adiante vê que tem um mundo ali que não deveria fazer parte do universo infantil. Trata-se da violência, da pobreza, da exploração, humilhação. Há uma reflexão muito bonita. De perto e de longe (observando), Sabino consegue passar uma realidade que não enxergamos ou que ignoramos enxergar.

Depois da leitura, você vai poder relembrar coisas de sua infância. E em algumas vezes você vai se identificar com algumas histórias.

Esses textos sobre a infância são fragmentos de vários livros do autor como:


Por isso, recomendo o livro para quem ainda não conhece as obras do autor. Ou se você gosta desse mundo infantil (nostálgico até), vale a pena. E até pode ser uma dica de presente para uma criança (não muito pequena).

Onde comprar?